Histórias

  • Lay
    Lay, 24 anos
    Osasco, SP
    Fotografada por Anna Mascarenhas

    Nunca sabemos direito como o lugar molda a gente. O que seria diferente se eu vivesse em outro lugar? Com a internet, viramos gente do mundo. Tem quem acha que eu sou gringa. O que não dá pra apagar é a pele preta, e isso, por si só, é toda uma geografia. O mundo se abriu pra mim aos poucos. E transformei meu corpo num meio de expressão de minhas noções de vanguarda, de desafio. A vantagem de ser mulher é que não temos medo de modificar a imagem – o problema é fazer isso para se encaixar num padrão. Pretas loiras são como pessoas tatuadas. É um choque, é artificial. O que é ótimo. É a ousadia de modificar a natureza das coisas, desafiar o establishment. Quem acha que uma negra descolore o cabelo para parecer mais branca só pode ser racista. Quero representar a beleza brasileira, sim: as mulheres que dançam, cantam, escrevem, criam um mundo novo para elas mesmas.

  • Rita Azevedo
    Rita Azevedo, 36 anos
    Rio de Janeiro, RJ
    Fotografada por Julia Farias

    Esta foto foi tirada no dia do aniversário de 1 ano da minha filha, Olga. A mamadeira, aí, tem muito significado. Fazia um mês que eu havia parado de amamentar. Sempre fui meio exagerada com meu visual, vaidosa. Mas nesse período meu cabelo estava bem escuro, preso, reflexo dessa fase pós-gravidez, um pouco antes de voltar para o “mundo real”. Era um tempo em que eu preferia deixar a Olga linda em vez de me arrumar. Passou e hoje eu consigo dar conta de tudo: do trabalho, de casa, dela… Sou arquiteta, trabalhei com moda e, então, fui fazer figurino de cinema. Foi um aprendizado me libertar da estética das passarelas e entrar nesse universo de pessoas mais reais. Recentemente, precisei construir um figurino que refletisse a mulher pernambucana. Ela tem uma mistura incrível de elegância com simplicidade.

  • Marie Declercq
    Marie Declercq, 26 anos
    São Paulo, SP
    Fotografada por Anna Mascarenhas

    Tenho celulite, estrias e estou acima do peso. Nada disso importa pra mim, porque escolhi parar de reprimir meu corpo e meus pensamentos. Quando aconteceu, foi libertador: passei a me enxergar de outro jeito, com mais leveza, mais fluidez, mais desejo. Eu me dei liberdade para sentir tesão, para fazer o que quero. Tanto que me formei em direito, mas decidi que seria muito mais realizada escrevendo sobre sexo numa revista feita por e para jovens. Devo muito à confiança que encontrei em mim mesma – a que me permiti enxergar. Sexo é um universo com mil e uma possibilidades e que concentra muito mais assuntos do que se fala por aí. E é isso que faz dele algo tão honesto e bonito: a não obviedade. Desse mesmo jeito, gosto de procurar beleza onde ela não é vista com tanta nitidez. É a beleza sem clichês, que foge aos padrões, que está em todo canto. Basta se libertar para ver que ela estará onde ninguém nem imagina encontrar.

  • Isabela Miranda de Souza
    Isabela Miranda de Souza, 20 anos
    Belo Horizonte, MG
    Fotografada por Moisés Santos

    Usei as tranças que aparecem na foto durante minha transição capilar. Elas têm origem na cultura africana e acho que têm tudo a ver com a cultura brasileira. Acredito que muitas mulheres brasileiras estejam passando pelo momento de se aceitarem como são e se descobrirem bonitas assim. No meu caso, alisei meu cabelo durante quase quatro anos até assumir o crespo. Os danos aos fios, somados à maior representatividade de mulheres crespas e cacheadas na mídia, me deram forças para mudar. Bonito mesmo é a gente se aceitar como a gente é.

  • Maria Fontoura
    Maria Fontoura, 47 anos
    Campo Grande, MS
    Fotografada por Stephan Hofmann

    Campo Grande tem o apelido de Cidade Morena por causa do calor que faz aqui. O sol, no cerrado, é intenso. Se você trabalha na rua, fica bronzeada como a cidade, com aspecto saudável. Aqui, consigo levar uma vida de cidade pequena. Sou arquiteta. Vou para a obra de manhã, almoço em casa e fico no escritório à tarde. Por isso, no meio do dia posso lavar o cabelo, trocar de roupa. Tenho traços indígenas – minha bisavó era índia. Mas meu cabelo é naturalmente encaracolado. Há dez anos, prefiro usá-lo liso e curto. É mais prático.

  • Twanny Fernandes
    Twanny Fernandes, 25 anos
    Recife, PE
    Fotografada por Bruna Valença

    Minha cidade, Recife, é muito ligada à arte, à música, e as pessoas são muito calorosas. Já viajei para alguns lugares, mas a atmosfera aqui é diferente e me inspira: no meu trabalho, musicalmente, e no meu estilo de vida. Esta imagem foi produzida para estampar a capa do meu álbum – a maquiagem bem colorida, com o fundo escuro, remete a uma atmosfera lúdica, de sonho, que é o tema da primeira faixa. O que mais gosto em mim – e que reparo primeiro nas pessoas – são os olhos, as janelas da alma. Não gostava muito das minhas sobrancelhas, que, propositalmente, ficaram bem marcadas nesta foto. Mas decidi aceitar quando percebi que era algo que não poderia mudar.

  • Gabriela Franze
    Gabriela Franze, 20 anos
    Brasília
    Fotografada por Sarah Outeiro

    Acredito na transparência da beleza. Se estou em um dia ruim, não me sinto bem passando maquiagem e usando uma roupa que esconda que não estou legal. Sou verdadeira comigo mesma. A cor do meu cabelo é o mais possível natural, esse tom castanho. A franja eu sempre tive. Deixei crescer uma vez, mas não era eu. Daí, ela ficou cada vez mais curta, comecei a fazer tatuagens, usar roupas que me deixavam confortável – e me diziam que eu não teria futuro. Aqui, em Brasília, sempre vi gente diferente, bonita e feliz do jeito que é. Isso me deixa confiante para colocar para fora o que tenho dentro de mim.

  • Tuigue Venzon
    Tuigue Venzon, 35 anos
    Tijucas, SC
    Fotografada por Gustavo Venzon Ferreira Gomes

    Nasci com malformação arteriovenosa, uma falha nos vasos sanguíneos, e com paraparesia progressiva, perda gradual das funções motoras. Por isso, os médicos diziam que eu não poderia andar, nem movimentar os braços, nem sequer falar. Só que, aos 3 anos e meio, fiquei em pé e caminhei. Mancava um pouco, mas nada que me impedisse de chegar até os 20 andando por toda parte, fazendo amigos, estudando, indo a festas. Depois, os movimentos foram diminuindo, assim como o equilíbrio e a coordenação. Até os 29, usei muletas – as minhas eram cor-de-rosa! – e, a partir de então, passei a andar em cadeira de rodas. Claro que essa regressão me deixou triste. Mas minha mãe e meus irmãos não me deixaram desanimar. Sempre incentivaram meus passos. Parti para o desafio seguinte: a carta de motorista. Hoje, guio um carro adaptado e dirijo muito – só falta tomar coragem para pegar estrada. Tenho um namorado, estou nos finalmentes da faculdade de pedagogia e sonho em ser escritora (já tenho até uma coluna no jornal do município vizinho, Porto Belo). Beleza é mexer-se ao encontro de si mesmo; é sentir-se bem com suas possibilidades. Eu me sinto bonita – tá certo que não sou como a Twiggy (modelo britânica e ícone da moda nos anos 1960), que inspirou meu nome. Mas sou feliz por ser quem sou.

  • Thaís Faddie
    Thaís Faddie, 20 anos
    Porto Murtinho, MS
    Fotografada por Sarah Outeiro

    Nasci em uma cidade pequena, próxima à fronteira com o Paraguai. Perto de onde eu morava, havia uma aldeia e convivíamos com índios de pele vermelha e cabelo preto. Minha família era diferente: todos bem brancos e loiros. Eu tinha sardinhas e odiava-as. Tentei usar cremes para fazê-las sumir e pintei meu cabelo pela primeira vez aos 9 anos. Não gostava do que via no espelho e sofria bullying dos colegas. Na adolescência, essa aceitação piorou e recorri à terapia para me enxergar melhor. Há dois anos, estou mais feliz comigo mesma, mais confiante. Hoje, morando na capital, continuo sentindo que sou julgada apenas pela minha aparência – só que, se antes eu fugia ao padrão, agora me encaixo no que as pessoas consideram a beleza ideal. Elas dizem: “Você é linda, não tem do que reclamar”. O que eu queria mesmo era que olhassem para além disso, para quem sou. É assim que acho alguém bonito, prestando atenção nos detalhes, em como ele é, como se comporta.

  • Inge Porto
    Inge Porto, 49 anos
    Floresta, PE
    Fotografada por Julia Farias

    Casei-me com minha companheira em maio, no dia em que esta foto foi tirada. Foi um dos momentos mais felizes que já vivi! Celebrar ao lado de meus melhores amigos o amor construído entre duas mulheres foi também um ato político. Sou uma lutadora. Ter nascido no sertão e continuar no Nordeste (hoje, vivo em Recife) fez de mim uma pessoa obstinada, que preza pela resistência. Além de ser baterista numa banda de rock formada só por mulheres, a Estrógeno, já trabalhei em várias frentes, da educação física à tecnologia da informação, sempre com integrida- de, dando o meu melhor. Esse sentir-se bem é o que define beleza para mim. Seja na alimentação, seja na forma de vestir, passando pela qualidade do sono, dia após dia procuro respeitar meus desejos, ser honesta comigo mesma. É assim também que a beleza nos ajuda a viver o amor – de todas as formas e sem preconceitos.

Carregar mais